Olhar para uma equipe imobiliária hoje é bem diferente de olhar para o setor algumas décadas atrás. A participação da mulher no mercado imobiliário cresceu bastante e já representa uma parcela expressiva da profissão no Brasil.
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Só que os números não mostram como essa participação se distribui no setor. As mulheres avançaram na corretagem, na administração, na gestão e em outras frentes, enquanto liderança, segurança no ambiente profissional e acesso aos espaços de decisão ainda mostram diferenças importantes.
Acompanhe o post e descubra o que os números revelam e o que ainda deixam de mostrar sobre as mulheres no mercado imobiliário.
Quantas mulheres trabalham no mercado imobiliário brasileiro?
Os números mais recentes mostram uma participação feminina ampla, mas é importante observar o recorte de cada levantamento. Segundo dados divulgados pela Exame, com base na Brain Inteligência Estratégica, as mulheres representam 54% dos profissionais do setor imobiliário. Já entre os corretores habilitados no país, elas correspondem a mais de 40%, segundo o Cofeci.
Esses percentuais não são contraditórios. “Profissionais do setor imobiliário” inclui um universo mais amplo, formado por pessoas que atuam em diferentes áreas da cadeia. “Corretores habilitados”, por sua vez, considera especificamente os profissionais registrados para exercer a corretagem.
A mesma publicação informa que a participação feminina na corretagem cresceu 144% na última década. Esse avanço muda a composição de uma profissão que, durante muito tempo, teve presença masculina bem mais evidente.
Hoje, portanto, falar sobre mulheres no mercado imobiliário não significa tratar de uma participação periférica. Corretoras já representam uma parcela relevante da categoria, e a presença feminina também aparece em áreas administrativas, jurídicas, financeiras, comerciais e de gestão. O próximo ponto é entender se esse crescimento quantitativo chegou com a mesma intensidade a todos os espaços profissionais.
Como a presença das corretoras mudou nos últimos anos?
O crescimento de 144% na participação feminina na corretagem mostra uma mudança que vai além de um número absoluto maior. Há mais mulheres entrando na profissão, permanecendo nela e construindo trajetórias em diferentes frentes do mercado.
Esse movimento também aparece na criação de redes e iniciativas voltadas ao desenvolvimento profissional. O Instituto Mulheres do Imobiliário, por exemplo, reúne mais de 8 mil membros em 14 estados, segundo a Exame. A mesma publicação destaca ações desenvolvidas dentro do Sistema Cofeci-Creci, do IBRADIM e do Secovi-SP para ampliar formação, visibilidade e liderança feminina.
A mudança também chegou às entidades representativas. Em vez de concentrar a discussão apenas na entrada das mulheres no setor, essas iniciativas passaram a olhar para temas como progressão de carreira, participação institucional, ambientes de trabalho e presença em posições de decisão.
Isso ajuda a deslocar a pergunta. O desafio atual não é somente saber quantas mulheres trabalham no mercado imobiliário, mas entender onde elas estão, quais oportunidades encontram e até onde conseguem avançar.
Onde as mulheres já ocupam espaço no mercado imobiliário?
A atuação feminina no setor não se resume à corretora que apresenta imóveis ou acompanha visitas. Mulheres trabalham com compra e venda, locação, captação, administração imobiliária, gestão comercial, liderança de equipes, incorporação, áreas jurídicas e financeiras, empreendedorismo e direção de empresas e entidades.
Essa presença, porém, não é distribuída igualmente. Segundo informações do Secovi-SP divulgadas pela Exame, imobiliárias e administradoras de condomínios apresentam maior representatividade feminina, enquanto a incorporação ainda registra participação menor.
A diferença importa porque cada área oferece trajetórias, responsabilidades e acesso a decisões distintos. Ter muitas mulheres em uma parte da cadeia não significa que a presença esteja igualmente consolidada em outras.
Para sua imobiliária, esse olhar também pode ser feito internamente. Quantas mulheres estão no atendimento e na operação? Quantas coordenam equipes, respondem por metas, participam de decisões ou ocupam cargos de direção? Observar a distribuição ajuda a enxergar o que um percentual geral da equipe não mostra.
Quais desafios as mulheres ainda enfrentam no mercado imobiliário?
O aumento da presença feminina trouxe avanços visíveis, mas alguns dados mostram que entrada no setor e igualdade de oportunidades ainda não caminham no mesmo ritmo.
Acesso aos cargos de liderança
A pesquisa Datastore/Mulheres do Imobiliário citada pela Exame mostra que apenas 28% das profissionais percebem os cargos de liderança como ocupados por mulheres.
Esse resultado chama atenção para uma etapa diferente da carreira. Entrar no mercado é uma coisa; chegar aos espaços em que estratégias, recursos e decisões são definidos é outra. Por isso, representatividade precisa ser observada também em coordenações, gerências, diretorias e entidades.
Assédio e ambiente profissional
O mesmo levantamento traz um dado mais duro: 61% das profissionais pesquisadas disseram já ter sofrido assédio sexual, moral ou verbal no trabalho. Entre as que passaram por essas situações, 21% não denunciaram por medo de perder o emprego.
Esse problema não pode ser tratado como uma questão que cada profissional precisa administrar sozinha. Imobiliárias e lideranças têm responsabilidade na construção de regras de conduta, canais de orientação e procedimentos para receber e encaminhar relatos com seriedade.
Maternidade e organização da carreira
A maternidade pode exigir reorganização profissional em qualquer área. Para uma corretora que trabalha de maneira autônoma, com renda vinculada aos negócios fechados ou horários que incluem visitas e atendimentos fora do expediente convencional, essa reorganização pode ganhar características próprias.
Isso não significa presumir que toda mulher terá filhos ou que maternidade define a trajetória profissional feminina. Significa reconhecer que, quando ela acontece, políticas e medidas institucionais podem reduzir impactos concretos sobre a continuidade da carreira.
Crescer em número significa crescer em liderança?
Não necessariamente. Os dados ajudam a visualizar essa diferença: como dissemos, as mulheres representam 54% dos profissionais do setor, enquanto apenas 28% das participantes da pesquisa Datastore/Mulheres do Imobiliário percebem os cargos de liderança como ocupados por mulheres.
A representatividade pode ser observada em várias etapas: entrada, permanência, progressão profissional, coordenação de equipes, diretorias, empreendedorismo e participação em entidades. Um setor pode avançar bastante na primeira e continuar mais lento nas seguintes.
Há exemplos de movimentos em outra direção. Segundo a Exame, 56% da liderança interna do Secovi-SP é composta por mulheres, e a entidade lançou, em novembro de 2024, um Projeto de Desenvolvimento das Lideranças Femininas.
O dado mostra uma experiência concreta, mas não deve ser usado como retrato de todo o mercado. Ele ajuda a mostrar que participação em posições de liderança também pode ser acompanhada, discutida e trabalhada com ações específicas.
A mulher também ganhou peso do outro lado da negociação imobiliária
A presença feminina cresceu entre quem trabalha no setor e também aparece com força entre quem busca imóveis. Segundo dados do DataZAP de 2024 divulgados pela Exame, 52% dos interessados na compra de imóveis eram mulheres.
Esse número ajuda a desmontar uma imagem antiga em que o homem aparece automaticamente como principal decisor de uma compra imobiliária. Para marketing e atendimento, a consequência é bastante prática: comunicação, argumentos e experiências precisam conversar com quem realmente participa da decisão, sem partir de papéis de gênero presumidos.
Isso também não significa que uma cliente mulher deva ser atendida por uma corretora, nem que profissionais mulheres compreendam automaticamente clientes mulheres melhor do que homens.
Um bom atendimento continua dependendo de escuta, conhecimento, contexto e preparo. O dado serve para atualizar a visão sobre o público, não para criar um novo estereótipo.
Como as imobiliárias podem ampliar oportunidades para as mulheres?
O avanço depende de práticas que apareçam na rotina, principalmente nas decisões de contratação, desenvolvimento, promoção e proteção das equipes.
Use critérios claros para promoção e liderança
Defina o que se espera de quem deseja assumir novas responsabilidades. Metas, competências, conhecimentos necessários e resultados observáveis deixam a progressão menos dependente de relações informais ou percepções subjetivas.
Crie caminhos reais de desenvolvimento
Treinamento técnico, acompanhamento, mentoria e preparação para gestão ajudam profissionais interessadas em avançar. O acesso a essas oportunidades precisa acompanhar capacidade, desempenho e objetivo de carreira, em vez de depender de quem já circula perto das lideranças.
Tenha regras claras contra assédio
Uma frase no código de conduta dizendo que a empresa “não tolera assédio” resolve pouco se ninguém sabe o que fazer diante de uma ocorrência. A equipe precisa conhecer quais comportamentos são inadequados, onde pedir ajuda, como relatar uma situação, quem ficará responsável pela análise e como a confidencialidade será tratada.
Diante dos dados do levantamento Datastore/Mulheres do Imobiliário, esse cuidado merece espaço concreto na gestão, e não apenas em campanhas internas.
Observe quem chega aos espaços de decisão
Uma imobiliária pode ter uma equipe majoritariamente feminina e manter coordenação e direção concentradas em poucos perfis. Acompanhar quem recebe oportunidades de liderança ajuda a identificar padrões que ficam escondidos quando você olha apenas para o total de funcionários.
Além de criar políticas, acompanhe os efeitos delas. Se sua imobiliária oferece treinamentos, por exemplo, observe quem participa, quem recebe projetos de maior responsabilidade e quem é considerado nas promoções seguintes. Se mulheres estão presentes na equipe comercial, mas raramente aparecem nas reuniões em que metas e estratégias são definidas, há uma diferença que o número total de profissionais não revela.
Esse acompanhamento não precisa virar uma meta artificial de promoção. Ele serve para identificar se oportunidades semelhantes estão chegando a pessoas com competência e interesse para assumi-las e se algum padrão interno merece ser revisto.
Evite transformar gênero em perfil profissional
Mulheres não precisam ser direcionadas ao relacionamento porque seriam “naturalmente acolhedoras”, enquanto homens ficariam com funções consideradas mais analíticas ou estratégicas. Esse tipo de associação limita trajetórias dos dois lados. Distribua oportunidades segundo competência, interesse, experiência e desempenho.
Como uma corretora de imóveis pode fortalecer a própria carreira?
Se você atua como corretora, alguns caminhos ajudam a construir uma trajetória mais sólida sem pressupor que exista um único modelo de sucesso profissional.
Continue desenvolvendo conhecimento técnico
Documentação, negociação, contratos, captação, financiamento, características das regiões atendidas e dinâmica do mercado fazem parte da base profissional. Quanto maior o domínio desses assuntos, mais repertório você tem para orientar clientes e assumir responsabilidades diferentes.
Acompanhe os resultados do próprio trabalho
Leads recebidos, visitas, propostas, conversões, carteira e negócios concluídos ajudam a construir uma leitura objetiva da sua atuação. Esses dados permitem identificar pontos fortes, necessidades de desenvolvimento e resultados que podem ser apresentados em conversas sobre novas responsabilidades.
Construa uma rede profissional
Entidades, eventos, cursos, grupos e comunidades aproximam profissionais de referências, conhecimento e oportunidades. Redes voltadas às mulheres ganharam força justamente porque criam espaços de troca sobre experiências que nem sempre aparecem na rotina formal das empresas.
Busque espaços de liderança quando esse for seu objetivo
Coordenação comercial, gestão, empreendedorismo, especializações e participação institucional fazem parte das possibilidades de carreira. Não existe, porém, uma etapa obrigatória em que toda corretora precise virar gestora.
Uma carreira bem-sucedida pode significar liderar uma equipe, construir uma carteira própria, especializar-se em um segmento, empreender ou aprofundar a atuação comercial. O objetivo profissional precisa fazer sentido para quem está construindo a trajetória.
O que mudou recentemente para corretoras que se tornam mães?
A Resolução Cofeci nº 1.555/2025 criou um benefício específico para corretoras que se tornam mães. A norma concede isenção de uma anuidade em caso de nascimento com vida ou adoção legal de criança.
Segundo orientação publicada pelo CRECI-SC, a profissional pode optar pela aplicação do benefício ao exercício em curso ou ao seguinte e deve apresentar o pedido conforme os requisitos definidos para o procedimento.
A medida tem relevância especial para profissionais que exercem a corretagem de maneira autônoma e precisam reorganizar a atividade no período da maternidade.
Como documentos, canais de solicitação e orientações operacionais podem variar entre os Conselhos Regionais, consulte o CRECI da sua região antes de protocolar o pedido. Assim, você confirma o procedimento vigente e evita depender de instruções desatualizadas.
A presença feminina cresceu. O próximo passo é ampliar os espaços
A história da mulher no mercado imobiliário hoje é contada com números muito diferentes dos de uma década atrás. A participação aumentou, as profissionais estão em várias áreas e novas redes e iniciativas ganharam força. Ao mesmo tempo, liderança e segurança no ambiente de trabalho ainda exigem atenção.
Transformar presença em oportunidade passa por desenvolvimento, critérios claros de progressão e acesso aos espaços de decisão. E conhecimento continua sendo uma ferramenta importante nesse caminho.
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